Filipenses 3.7–21
A virada do ano é um tempo de
balanço e de expectativas. Olhamos para o ano que está se findando, lembrando
das conquistas, mas também das dores. Olhamos para o ano que está se
descortinando com os corações cheios de planos, sonhos e também de incertezas.
O apóstolo Paulo nos ensina, em
Filipenses 3, que a verdadeira virada não acontece apenas no calendário, mas na
direção correta de nossos corações. Ao lermos esse texto paulino, somos
convidados a reavaliar valores, redefinir prioridades e renovar a esperança,
vivendo com os olhos firmemente fixos em Cristo e na eternidade.
Em primeiro lugar, Paulo nos
mostra que devemos olhar para o passado vendo o que realmente tem valor. Paulo
faz um balanço honesto de sua vida pregressa (v.4-6). Mas, tudo aquilo que um
dia foi considerado lucro para ele — status religioso, prestígio, currículo
espiritual — agora é visto como perda (v.7-8), quando comparado à excelência do
conhecimento de Cristo. Cristo havia se tornado o centro de sua vida, a grande razão
de sua existência. Essa reflexão é especialmente necessária no início de um
novo ano. Somos convidados a perguntar a nós mesmos: o que tem ocupado o
lugar central em nosso coração? A esse respeito, John Stott faz uma observação
profundamente pertinente: “O maior obstáculo ao discipulado cristão não é o
pecado escandaloso, mas as boas coisas que tomam o lugar de Cristo.”[1]
Precisamos compreender que algumas coisas não precisam ser descartadas em
nossas vidas, mas tudo precisa ser relativizado à luz do valor supremo: conhecer
a Cristo. Entrar no novo ano implica aprender a abrir mão daquilo que nos
impede de avançar espiritualmente, mesmo que pareça valioso aos olhos do mundo.
Em segundo lugar, Paulo revela um
novo propósito no presente: conhecer Cristo e viver sua vida. Paulo afirma: “...considero
tudo como perda pela sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus...” (v. 8) e “O
que eu quero é conhecer Cristo e o poder da sua ressurreição...” (v.10). Ele
não está falando de um conhecimento meramente intelectual, mas de um relacionamento
vivo, profundo e transformador, pois é isso o que a palavra “conhecer” significa
no original. Como discípulos de Jesus precisamos compreender que o cristianismo
não é simplesmente uma religião; é uma vida de comunhão diária com Cristo. A fé
cristã implica em uma vida de caminhada íntima com o Senhor Jesus. A.W. Tozer
expressou bem essa verdade ao dizer: “Conhecer a Deus é o maior privilégio da
vida humana, e crescer nesse conhecimento é o seu maior dever.”[2]
O novo ano nos chama a uma fé dinâmica, marcada por disciplina espiritual,
perseverança e paixão por Cristo.
Em terceiro lugar, Paulo nos
desafia a uma nova postura de santidade e maturidade. Ele diz: “Todos, pois,
que somos perfeitos, tenhamos esse sentimento...” (v. 15a). Não há contradição
com o verso 12, pois aqui Paulo se refere à perfeição final. Algumas novas
traduções como a NVI, NAA e NVT, por exemplo, traduzem a palavra teleios como
“maduro”. Prefiro a palavra “perfeito” da RA, mais alinhada com minha tradição.
John Knight diz que esses “perfeitos” retratam os que servem a Deus no Espírito
e não confiam na carne (conf. o verso 3), e que entraram completamente no espírito
e desígnio do evangelho. São aqueles que estão vivos dentro os mortos, e entregaram
seus membros para servirem à justiça para a santificação (conf. Rm 6.13, 19). Aqueles
que possuem essa santificação provam o que são mostrando um “descontentamento santo”
com seu progresso espiritual. Esta perfeição nos apronta para a perfeição do
céu que está por vir.[3]
Este é um desafio para que possamos nos envolver cada vez mais com os
exercícios espirituais, buscarmos viver e andar em santidade, preocuparmo-nos
com o nosso progresso espiritual, e isso envolve discernimento, renúncia e
fidelidade ao evangelho. Não é possível avançar espiritualmente mantendo
valores que nos afastam de Deus.
Finalmente, Paulo nos mostra que,
para os crentes, há uma nova esperança para além do tempo em que está nossa
verdadeira pátria. Este deve ser o anelo de cada servo de Jesus Cristo. Paulo
encerra essa seção com uma afirmação poderosa: “a nossa pátria está nos céus”.
A maior esperança do cristão não está no que este novo ano pode trazer, mas no
que Cristo já garantiu. Paulo, inclusive, faz um contraponto com um grupo de
pessoas que tem vivido sob a perspectiva de coisas terrenas (v. 18-19). O
crente santificado não anda assim, seu olhar está fixado na eternidade. A
promessa da transformação final nos lembra que nenhuma dor, luta ou limitação é
definitiva. Vivemos no presente podendo enfrentar todos os tipos de lutas, e
vamos enfrentar, mas nossos olhos devem estar voltados para a eternidade. Essa
esperança não nos aliena da realidade; pelo contrário, nos fortalece para
enfrentá-la com fé, coragem e confiança. Entramos no novo ano sabendo que nosso
destino não é incerto, pois está seguro nas mãos de Deus.
Na entrada deste novo ano, Paulo nos
ensina a fazer mais do que promessas. Somos chamados a entregarmo-nos
totalmente a Cristo, buscando viver uma vida de comunhão e intimidade com Ele,
deixando para trás o que não edifica, prosseguindo com santidade no presente e
avançando com esperança para o futuro.
Ótima reflexão para começar o ano bem e com questionamentos relevantes para o contexto da igreja atual.
ResponderExcluirQue benção! Que Deus nos ajude a abandonar o que não edifica, viver em amor santo no presente e esperança no futuro. Excelente reflexão para o início de ano! Obrigado e parabéns!
ResponderExcluirUma excelente reflexão para o início de um ano, com o coração cheio de esperança.Obrigada meu pastor por compartilhar 🙌
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