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quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Vivendo o novo ano com os olhos espirituais

 

Filipenses 3.7–21

A virada do ano é um tempo de balanço e de expectativas. Olhamos para o ano que está se findando, lembrando das conquistas, mas também das dores. Olhamos para o ano que está se descortinando com os corações cheios de planos, sonhos e também de incertezas.

O apóstolo Paulo nos ensina, em Filipenses 3, que a verdadeira virada não acontece apenas no calendário, mas na direção correta de nossos corações. Ao lermos esse texto paulino, somos convidados a reavaliar valores, redefinir prioridades e renovar a esperança, vivendo com os olhos firmemente fixos em Cristo e na eternidade.

Em primeiro lugar, Paulo nos mostra que devemos olhar para o passado vendo o que realmente tem valor. Paulo faz um balanço honesto de sua vida pregressa (v.4-6). Mas, tudo aquilo que um dia foi considerado lucro para ele — status religioso, prestígio, currículo espiritual — agora é visto como perda (v.7-8), quando comparado à excelência do conhecimento de Cristo. Cristo havia se tornado o centro de sua vida, a grande razão de sua existência. Essa reflexão é especialmente necessária no início de um novo ano. Somos convidados a perguntar a nós mesmos: o que tem ocupado o lugar central em nosso coração? A esse respeito, John Stott faz uma observação profundamente pertinente: “O maior obstáculo ao discipulado cristão não é o pecado escandaloso, mas as boas coisas que tomam o lugar de Cristo.”[1] Precisamos compreender que algumas coisas não precisam ser descartadas em nossas vidas, mas tudo precisa ser relativizado à luz do valor supremo: conhecer a Cristo. Entrar no novo ano implica aprender a abrir mão daquilo que nos impede de avançar espiritualmente, mesmo que pareça valioso aos olhos do mundo.

Em segundo lugar, Paulo revela um novo propósito no presente: conhecer Cristo e viver sua vida. Paulo afirma: “...considero tudo como perda pela sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus...” (v. 8) e “O que eu quero é conhecer Cristo e o poder da sua ressurreição...” (v.10). Ele não está falando de um conhecimento meramente intelectual, mas de um relacionamento vivo, profundo e transformador, pois é isso o que a palavra “conhecer” significa no original. Como discípulos de Jesus precisamos compreender que o cristianismo não é simplesmente uma religião; é uma vida de comunhão diária com Cristo. A fé cristã implica em uma vida de caminhada íntima com o Senhor Jesus. A.W. Tozer expressou bem essa verdade ao dizer: “Conhecer a Deus é o maior privilégio da vida humana, e crescer nesse conhecimento é o seu maior dever.”[2] O novo ano nos chama a uma fé dinâmica, marcada por disciplina espiritual, perseverança e paixão por Cristo.

Em terceiro lugar, Paulo nos desafia a uma nova postura de santidade e maturidade. Ele diz: “Todos, pois, que somos perfeitos, tenhamos esse sentimento...” (v. 15a). Não há contradição com o verso 12, pois aqui Paulo se refere à perfeição final. Algumas novas traduções como a NVI, NAA e NVT, por exemplo, traduzem a palavra teleios como “maduro”. Prefiro a palavra “perfeito” da RA, mais alinhada com minha tradição. John Knight diz que esses “perfeitos” retratam os que servem a Deus no Espírito e não confiam na carne (conf. o verso 3), e que entraram completamente no espírito e desígnio do evangelho. São aqueles que estão vivos dentro os mortos, e entregaram seus membros para servirem à justiça para a santificação (conf. Rm 6.13, 19). Aqueles que possuem essa santificação provam o que são mostrando um “descontentamento santo” com seu progresso espiritual. Esta perfeição nos apronta para a perfeição do céu que está por vir.[3] Este é um desafio para que possamos nos envolver cada vez mais com os exercícios espirituais, buscarmos viver e andar em santidade, preocuparmo-nos com o nosso progresso espiritual, e isso envolve discernimento, renúncia e fidelidade ao evangelho. Não é possível avançar espiritualmente mantendo valores que nos afastam de Deus.

Finalmente, Paulo nos mostra que, para os crentes, há uma nova esperança para além do tempo em que está nossa verdadeira pátria. Este deve ser o anelo de cada servo de Jesus Cristo. Paulo encerra essa seção com uma afirmação poderosa: “a nossa pátria está nos céus”. A maior esperança do cristão não está no que este novo ano pode trazer, mas no que Cristo já garantiu. Paulo, inclusive, faz um contraponto com um grupo de pessoas que tem vivido sob a perspectiva de coisas terrenas (v. 18-19). O crente santificado não anda assim, seu olhar está fixado na eternidade. A promessa da transformação final nos lembra que nenhuma dor, luta ou limitação é definitiva. Vivemos no presente podendo enfrentar todos os tipos de lutas, e vamos enfrentar, mas nossos olhos devem estar voltados para a eternidade. Essa esperança não nos aliena da realidade; pelo contrário, nos fortalece para enfrentá-la com fé, coragem e confiança. Entramos no novo ano sabendo que nosso destino não é incerto, pois está seguro nas mãos de Deus.

Na entrada deste novo ano, Paulo nos ensina a fazer mais do que promessas. Somos chamados a entregarmo-nos totalmente a Cristo, buscando viver uma vida de comunhão e intimidade com Ele, deixando para trás o que não edifica, prosseguindo com santidade no presente e avançando com esperança para o futuro.



[1] STOTT, John. O discípulo radical. São Paulo: ABU Editora, 2011.

[2] TOZER, A. W. O conhecimento do Santo. São Paulo: Mundo Cristão, 2007.

[3] KNIGHT, John. A Epístola aos Filipenses. IN: HOWARD et al. Comentário Bíblico de Beacon. Rio de Janeiro: CPAD, 2006.

3 comentários:

  1. Ótima reflexão para começar o ano bem e com questionamentos relevantes para o contexto da igreja atual.

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  2. Que benção! Que Deus nos ajude a abandonar o que não edifica, viver em amor santo no presente e esperança no futuro. Excelente reflexão para o início de ano! Obrigado e parabéns!

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  3. Uma excelente reflexão para o início de um ano, com o coração cheio de esperança.Obrigada meu pastor por compartilhar 🙌

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